"Some age, others mature"
FOTOGRAFO NUMA TENTATIVA CONSTANTE DE MOSTRAR NUM INSTANTÂNEO A TENSÃO DINÂMICA DO TEMPO

I've been photographing for as long as I can remember, always attempting to show on a snapshot the dynamic tension of time

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

CONÍMBRIGA E A ILUSÃO DO PROGRESSO

 

 
 





 


 
 

Conímbriga, e a Ilusão do Progresso

 

E, sessenta anos mais tarde, voltei a visitar uma Conímbriga maior, com um Museu que, agora, é Nacional. Nesta visita levei comigo um outro olhar, mais maduro, mais conhecedor e mais interessado.

Mais do que nas ruínas, o meu interesse centrou-se sobretudo nas peças existentes no museu, e cuja idade variará entre os bastante mais do que 2000 anos e os cerca de 1500 anos.

Anéis, pulseiras, brincos, furadores, tesouras, "piercings", pinças, alfinetes, dedais, prisões de cabelo, ânforas, partes de capiteis, enchós, martelos, foices, enxadas, chaves, fechaduras, chocalhos, rocas, fusos, teares, mós, peças de arte, e outras peças de uso quotidiano da altura, em tudo semelhantes, incluindo no design, aos que via em casa dos meus avós, ou que ainda hoje vejo nas nossas casas.

Tenho em minha casa, entre outras peças antigas, duas foicinhas, um chocalho, uma roca, um dedal, duas pinças e uma tesoura, praticamente iguais às que encontrei no Museu. Nestes artefactos e na sua possível utilização, a evolução pouco evoluiu.

Também os padrões de pesos e medidas se mantiveram durante séculos. Pé, Milha, Libra, eram as unidades oficiais utilizadas. O, sistema métrico decimal, o metro, o km e o kilo, só apareceram na última década do séc. XVIII, em França, que em Portugal foi oficializado em 1852, demorando muitos anos a implementar, sendo, no entanto, dos primeiros países a fazê-lo. 

 

Há quem diga que a História é uma linha contínua de progresso. Depois de visitar Conímbriga, penso que a História é mais parecida com uma sucessão de marés. Às vezes avança, outras vezes recua, e por vezes fixa-se em longos períodos de estagnação.

Conímbriga floresceu num desses momentos em que a humanidade parecia avançar com passo seguro. Hoje… bem, hoje atravessamos uma calmaria enganadora, sem ondas nem correntes, onde nem os peixes parecem mover-se, apesar de continuar a mudar por baixo da superfície.

 

Chega-se a Conímbriga e percebe-se de imediato que os Romanos tinham uma relação muito séria com a palavra “durabilidade”. As casas ainda lá estão. Os mosaicos ainda brilham. Os aquedutos ainda funcionam. E nós, dois mil anos depois, ainda estamos a tentar perceber como é que eles fizeram tudo aquilo sem electricidade, sem betoneiras e sem engenheiros a dizer que tudo está dentro da norma.

Hoje, quando um prédio faz dez anos, já se fala em “intervenção profunda”. Os Romanos, se vissem isso, rir-se-iam tanto que até o Coliseu abanaria.

 

Roma era o grande centro do conhecimento e da ordem na Antiguidade.

Tinham estradas que ainda hoje usamos. Tinham leis que ainda hoje citamos. Tinham termas que ainda hoje nos fazem pensar que desaprendemos o conceito de “banho relaxante”.

E tinham uma coisa que nós perdemos algures ao longo da história. Tinham bom senso colectivo.

 

Apesar de tudo, há coisas que nunca mudam, como a vaidade. Ontem eram túnicas e jóias, e hoje são leggings e filtros. Ou a mania de parecer importante. Ontem era o senador, hoje é o “importante de Melo”. Ou, a política; ontem eram punhais no Senado, hoje são as mensagens passivo-agressivas. Ou a moda; ontem eram penteados elaborados, hoje são cortes que custam mais do que um mosaico romano. A petulância; ontem era o general que achava que era filho de Marte, e hoje é o tipo que estaciona em segunda fila porque “é só um minuto” ou o que num qualquer confronto verbal lá lhe sai um “o senhor sabe quem eu sou?”.

A humanidade, no fundo, é um animal que gosta de se enfeitar e de se achar especial, mesmo quando está a fazer asneira.

 

Há áreas onde o mundo moderno parece uma versão barata da Roma Antiga.

Olhemos para a Construção Civil. Eles construíam para durar séculos. Nós construímos para durar até ao fim da garantia.

Atentemos no Urbanismo. Eles, tinham ruas alinhadas e esgotos funcionais. Nós temos rotundas que não deviam existir e prédios onde não cabem, ou construídos em leitos de cheia.

Observemos a Higiene. Eles tinham termas, e nós ainda temos algumas. No entanto temos ginásios, que nascem como cogumelos, onde metade das pessoas não sabe usar o chuveiro.

E que dizer da Cultura? Eles tinham teatros. Nós temos centros comerciais.

E da Engenharia? Eles faziam aquedutos que ainda hoje funcionam. Nós fazemos túneis que fecham quando chove.

 

Não sejamos, porém, injustos. A medicina evoluiu. A nossa tecnologia é, hoje, extraordinária. Os direitos humanos melhoraram. A água potável é universal, ou quase. E a ciência é brilhante.

Mas nada disto invalida o facto de que os Romanos eram excelentes no que faziam, e nós somos excelentes em achar que somos excelentes.

 

Desaprendemos a construir com paciência. Desaprendemos a planear com visão. Desaprendemos a valorizar o belo no quotidiano. Desaprendemos a viver sem pressa. Desaprendemos a humildade. E, sobretudo, desaprendemos a perceber que não somos o centro do universo; somos só mais um capítulo, e nem sempre um dos melhores.

 

Depois da glória romana, veio a Idade Média, aquela fase da História em que a Europa decidiu que pensar era opcional, e que muito do conhecimento clássico se perdeu ou ficou adormecido. Aconteceu por essa altura alguma espécie de refundação regressiva da civilização europeia, um longo recomeço feito de esquecimento, sobrevivência e reaprendizagem.

E depois disso, chegámos nós. A era da velocidade, da superficialidade, da petulância elevada a estilo de vida.

Conímbriga lembra-nos que houve um tempo em que a humanidade sabia construir, sabia viver, sabia cuidar, sabia planear, dando-nos uma lição de humildade. As pedras que pisei, sobreviveram a invasões, terramotos e esquecimentos. Hoje, apesar de toda a tecnologia, ainda tropeçamos em coisas que eles resolveram há dois mil anos. Um dia, quando outros caminharem sobre as nossas ruínas, que bom seria que tivessem nos olhos um espanto igual ao que nós hoje sentimos.

 
 
 
 

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES - Parque de Ciência e Tecnologia do Mar da Universidade do Porto

 


 





 


















 

O MAR COMO LABORATÓRIO DO FUTURO

 

Durante séculos, o Porto viveu de costas para a terra e de frente para o mar. Continua, porém, a olhá-lo, não para o atravessar, mas para o interrogar.

No século XV, o Porto olhava o mar para descobrir novos mundos. No século XIX, fez dele caminho para o comércio e a indústria. No século XX, Leixões tornou-se um grande porto comercial. No século XXI, continua voltado para o mar, mas procura compreendê-lo, cartografá-lo e protegê-lo.

O Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões é hoje muito mais do que uma elegante porta de entrada para quem chega pelo mar. No seu interior alberga o Parque de Ciência e Tecnologia do Mar da Universidade do Porto, transformando um edifício concebido para acolher passageiros num verdadeiro centro de produção de conhecimento.

Cerca de metade do espaço é dedicada à investigação científica e ao desenvolvimento tecnológico nas áreas da biologia marinha, da robótica e da oceanografia. Ali, onde o sal ainda se sente no ar, investigadores e engenheiros estudam os oceanos, desenvolvem instrumentos para a sua exploração e procuram respostas para os grandes desafios do nosso tempo, desde a preservação dos ecossistemas até ao uso sustentável dos recursos marinhos, sem esquecer tudo o que o mar oferece, e também cobra.

Durante séculos, o Porto e Leixões olharam o mar como caminho de partida, comércio e aventura. Agora, continuam voltados para o Atlântico, mas já não apenas para navegar sobre ele. Navega-se também pelo conhecimento, a mais longa de todas as viagens

O Atlântico não mudou. Continua imenso. Fomos nós que aprendemos a fazer-lhe perguntas diferentes.

Os navios continuam a entrar na barra, mas, no interior do Terminal, são agora as ideias que partem para o oceano.