Conímbriga, e a Ilusão do Progresso
E, sessenta anos mais tarde, voltei a visitar uma Conímbriga maior, com um Museu que, agora, é Nacional. Nesta visita levei comigo um outro olhar, mais maduro, mais conhecedor e mais interessado.
Mais do que nas ruínas, o meu interesse centrou-se sobretudo nas peças existentes no museu, e cuja idade variará entre os bastante mais do que 2000 anos e os cerca de 1500 anos.
Anéis, pulseiras, brincos, furadores, tesouras, "piercings", pinças, alfinetes, dedais, prisões de cabelo, ânforas, partes de capiteis, enchós, martelos, foices, enxadas, chaves, fechaduras, chocalhos, rocas, fusos, teares, mós, peças de arte, e outras peças de uso quotidiano da altura, em tudo semelhantes, incluindo no design, aos que via em casa dos meus avós, ou que ainda hoje vejo nas nossas casas.
Tenho em minha casa, entre outras peças antigas, duas foicinhas, um chocalho, uma roca, um dedal, duas pinças e uma tesoura, praticamente iguais às que encontrei no Museu. Nestes artefactos e na sua possível utilização, a evolução pouco evoluiu.
Também os padrões de pesos e medidas se mantiveram durante séculos. Pé, Milha, Libra, eram as unidades oficiais utilizadas. O, sistema métrico decimal, o metro, o km e o kilo, só apareceram na última década do séc. XVIII, em França, que em Portugal foi oficializado em 1852, demorando muitos anos a implementar, sendo, no entanto, dos primeiros países a fazê-lo.
Há quem diga que a História é uma linha contínua de progresso. Depois de visitar Conímbriga, penso que a História é mais parecida com uma sucessão de marés. Às vezes avança, outras vezes recua, e por vezes fixa-se em longos períodos de estagnação.
Conímbriga floresceu num desses momentos em que a humanidade parecia avançar com passo seguro. Hoje… bem, hoje atravessamos uma calmaria enganadora, sem ondas nem correntes, onde nem os peixes parecem mover-se, apesar de continuar a mudar por baixo da superfície.
Chega-se a Conímbriga e percebe-se de imediato que os Romanos tinham uma relação muito séria com a palavra “durabilidade”. As casas ainda lá estão. Os mosaicos ainda brilham. Os aquedutos ainda funcionam. E nós, dois mil anos depois, ainda estamos a tentar perceber como é que eles fizeram tudo aquilo sem electricidade, sem betoneiras e sem engenheiros a dizer que tudo está dentro da norma.
Hoje, quando um prédio faz dez anos, já se fala em “intervenção profunda”. Os Romanos, se vissem isso, rir-se-iam tanto que até o Coliseu abanaria.
Roma era o grande centro do conhecimento e da ordem na Antiguidade.
Tinham estradas que ainda hoje usamos. Tinham leis que ainda hoje citamos. Tinham termas que ainda hoje nos fazem pensar que desaprendemos o conceito de “banho relaxante”.
E tinham uma coisa que nós perdemos algures ao longo da história. Tinham bom senso colectivo.
Apesar de tudo, há coisas que nunca mudam, como a vaidade. Ontem eram túnicas e jóias, e hoje são leggings e filtros. Ou a mania de parecer importante. Ontem era o senador, hoje é o “importante de Melo”. Ou, a política; ontem eram punhais no Senado, hoje são as mensagens passivo-agressivas. Ou a moda; ontem eram penteados elaborados, hoje são cortes que custam mais do que um mosaico romano. A petulância; ontem era o general que achava que era filho de Marte, e hoje é o tipo que estaciona em segunda fila porque “é só um minuto” ou o que num qualquer confronto verbal lá lhe sai um “o senhor sabe quem eu sou?”.
A humanidade, no fundo, é um animal que gosta de se enfeitar e de se achar especial, mesmo quando está a fazer asneira.
Há áreas onde o mundo moderno parece uma versão barata da Roma Antiga.
Olhemos para a Construção Civil. Eles construíam para durar séculos. Nós construímos para durar até ao fim da garantia.
Atentemos no Urbanismo. Eles, tinham ruas alinhadas e esgotos funcionais. Nós temos rotundas que não deviam existir e prédios onde não cabem, ou construídos em leitos de cheia.
Observemos a Higiene. Eles tinham termas, e nós ainda temos algumas. No entanto temos ginásios, que nascem como cogumelos, onde metade das pessoas não sabe usar o chuveiro.
E que dizer da Cultura? Eles tinham teatros. Nós temos centros comerciais.
E da Engenharia? Eles faziam aquedutos que ainda hoje funcionam. Nós fazemos túneis que fecham quando chove.
Não sejamos, porém, injustos. A medicina evoluiu. A nossa tecnologia é, hoje, extraordinária. Os direitos humanos melhoraram. A água potável é universal, ou quase. E a ciência é brilhante.
Mas nada disto invalida o facto de que os Romanos eram excelentes no que faziam, e nós somos excelentes em achar que somos excelentes.
Desaprendemos a construir com paciência. Desaprendemos a planear com visão. Desaprendemos a valorizar o belo no quotidiano. Desaprendemos a viver sem pressa. Desaprendemos a humildade. E, sobretudo, desaprendemos a perceber que não somos o centro do universo; somos só mais um capítulo, e nem sempre um dos melhores.
Depois da glória romana, veio a Idade Média, aquela fase da História em que a Europa decidiu que pensar era opcional, e que muito do conhecimento clássico se perdeu ou ficou adormecido. Aconteceu por essa altura alguma espécie de refundação regressiva da civilização europeia, um longo recomeço feito de esquecimento, sobrevivência e reaprendizagem.
E depois disso, chegámos nós. A era da velocidade, da superficialidade, da petulância elevada a estilo de vida.
Conímbriga lembra-nos que houve um tempo em que a humanidade sabia construir, sabia viver, sabia cuidar, sabia planear, dando-nos uma lição de humildade. As pedras que pisei, sobreviveram a invasões, terramotos e esquecimentos. Hoje, apesar de toda a tecnologia, ainda tropeçamos em coisas que eles resolveram há dois mil anos. Um dia, quando outros caminharem sobre as nossas ruínas, que bom seria que tivessem nos olhos um espanto igual ao que nós hoje sentimos.







